quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A visita dos zombadores



Certa vez, houve uma visita de sujeitos zombadores à residência de um sábio sufi. Desde o princípio, haviam combinado que zombariam e ridicularizariam daquele velho ancião com o intuito de esmagá-lo moralmente.



Humilde e benfazejo, como era, aquele senhor recebeu cordialmente aos zombadores, solicitando que entrassem. Ao passo que adentravam na casa do sábio, tudo o que viam na moradia do sábio era motivo de chacota:



- Vejam como é escura e deteriorada, a casa do "sábio"! Hahahahahaha



- Vejam como é velha e antiquada a mobília do velho! Hahahahahaha



- Vejam como o velho se veste mau! Hahahahahahhahhahahahhahha


Entretanto, o ancião não perdia seu autocontrole, e mantinha-se firme, e resignado diante daquela situação constrangedora.


Com o passar do tempo, aqueles zombeteiros perceberam que sua missão de ridicularizar ou enraivecer ao sábio não prosperava, e perguntaram-lhe o motivo pelo qual não se alterava: -Por que o mestre não se enfurece ou se enrubesce com o que dizemos? Há mais de uma hora que estamos a ridicularizá-lo a fim de encontrar um deslize de ti.


De pronto, o ancião respondeu-lhes com a seguinte frase:

- Desde quando entraram em minha casa, vi uma multidão de anjos e demônios acompanhando as coisas que falavam. Aqueles sussurravam ao meu ouvido: - não caias no jogo desses iníquos, pois te testam a mando dos Jins. Sede forte, e resista aos impropérios deles.

-Também vi os cochichos dos jins, e como se acercavam de vocês. Sendo assim, e percebendo que os senhores eram meros títeres escarniados pelos demônios, resolvi ver até onde iam com esse intuito sinistro.

Ao se darem conta do papel ridículo que realizavam, aqueles zombeteiros se arrependeram de suas más ações, tornando-se discípulos daquele velho e sábio ancião sufi





*Extraído do livro de contos Saridim, de Ashyb Hanier

Lições de Vida


A vida costuma dar lições, exemplificando os seres humanos com sinais bem contundentes. Vi e percebi de imediato que as respostas de Deus aos ímpios costumam vir em doses lentas, mas sempre pontuais. Há um mecanismo de compensação divina, que com a precisão de uma balança, afere e recompensa com justiça as ações e intenções humanas, boas ou más. Em 2 de dezembro deste ano se completarão 42 anos da morte de um cidadão ilustre desta cidade, morto com requintes de crueldade. Nefhtale Freire de Araújo, ou simplesmente Netale, como era conhecido carinhosamente pelos amigos e familiares, fora brutalmente assassinado em vis condições por uma horda de malfeitores. Porém, antes de adentrar nesse evento nefasto, quero historiciar a vida desse homem íntegro e de bem. Netale era um cidadão varzense comprometido com sua família e a comunidade. Nascido numa boa família, e dotado de uma capacidade intelectiva invejável, foi hábil em aliar seu conhecimento ao exercício do bem. Sempre pensando nos outros, foi capaz de doar um pouco de si na consecução do bem social. Ainda menino, despertava admiração em seus familiares pela meiguice que lhe era peculiar. Seus colegas de escola tinham-no na conta de um gênio brilhante, bem instruído na matemática e no português. Bom pai e chefe de família, teve três filhos com Rita Mascena: Nadja, Nedja e o saudoso Nadjair. De tratamento benigno e humano, sempre mostrou compaixão pelos desafortunados, a quem procurava auxiliar materialmente ou com uma palavra amiga: que o digam o Sr. Antônio e a Sra. Josefa (dona Zefa), casal com enorme prole encontrado por Netale ao relento, e imediatamente levados à sua fazenda a fim de trabalharem e terem uma condição mais digna. Muitos anciões de Várzea, ainda hoje, podem confirmar as inúmeras vezes que bateram na sua porta a fim de transportar um enfermo em seu Jeep-62, fato para o qual, nunca se esquivou, inclusive tirando de seu bolso o dinheiro para comprar a medicação do doente. Além dessa fidalguia moral, atributo herdado de sua mãe Isabel, tinha por hobby a música e as cavalhadas. Exímio instrumentista, Netale era bem versado no saxofone e clarineta, atraindo a si os aplausos da platéia. Até chegou a granjear a si, em homenagem póstuma, o nome de uma banda filarmônica vinculada a uma instituição de ensino de Várzea. Como cavaleiro, apreciava a cavalhada, esporte bem incrustado nos Freires, família remanescente dos antigos cavaleiros Templários da idade média. No aspecto empresarial, Netale se mostrou um profícuo artífice em vários campos. Foi em Sabugirana um excelente comerciante, mantendo uma bodega que atendia as necessidades locais. No aspecto industrial, implementou vários mecanismos manufaturadores da produção agrícola em sua propriedade, agregando valor aos produtos do Juremal e de outras propriedades vizinhas. Outrossim, era um insigne prestador de serviços através do seu caminhão Chevrolet-57, realizando o transporte de pessoas e bens para outras cidades circunvizinhas. Pois bem, os feitos desse brioso sertanejo não foram capazes de salvar sua vida da sanha e brutalidade de um punhado de malfeitores e covardes. Numa manhã de dezembro de 1967, quando ordenhava vacas no curral do Juremal com o fito de levar leite à sua filhinha caçula, fora abruptamente surpreendido por uma viatura policial que veio em seu encalço a pretexto de averiguar uma denúncia ardilosamente forjada por um parente seu. Aproveitando-se da ausência da mãe de Netale, que viajou a Campina Grande para submeter a tratamento ocular, o Judas Iscariotes foi capaz de caluniar seu primo, conduzindo a polícia à caça de um homem de bem. Chegando ao Juremal, a polícia logo apreendeu-lhe, levando para um suplício comparável a dolorosa via cruzes de Jesus Cristo. Guiado à morte, por Judas Iscariotes e pelos militares, foi submetido à tortura e castração, sendo lançado como um bicho à porta da delegacia de Santa Luzia. Esse tratamento desumano e brutal teve ressonância nos principais meios da imprensa paraibana, sendo amplamente noticiado pelo Correio da Paraíba e O Norte. Contudo, a manipulação política inverteu os papéis, agindo inescrupulosamente na persuasão do corpo de Jurados. Infelizmente é prática rotineira, no nosso Vale do Sabugi, o escamoteamento da verdade a fim de atender interesses escusos de grupos políticos sanguessugas. Pois bem, o homem morto vil e covardemente pela polícia, foi reputado como culpado, enquanto os algozes foram sumariamente inocentados. À época, a população de Várzea chegou a fazer um abaixo assinado, repudiando as inverdades materializadas naquele julgamento sórdido e ignóbil. Meus amigos, observando estes fatos ocorridos na longínqua década de 60, poderíamos supor que essa injustiça humana ficou completamente impune. Lerdo engano! Nesse ínterim, as forças de Deus, o Todo Poderoso e Supremo Juiz, começaram a agir silenciosamente sem alardes, liquidando um a um, os partícipes deste crime. Os políticos envolvidos na trama tiveram um destino traumático, ora padecendo de enfermidades agonizantes, ora vendo seus filhos suportarem sofrimentos similares aos de Netale, tudo em cumprimento ao preceito de Êxodo 20, 5: “... porque eu, Ihweh teu Deus, sou um Deus ciumento, que puno a iniqüidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração ...”. O famoso advogado criminalista que fez a desafortunada defesa desses criminosos, pode até ter logrado uma vitória episódica, mas foi brutalmente morto há uns 20 anos atrás em circunstâncias até hoje não esclarecidas, cumprindo-se o que preceitua o Salmo 62, 3 a 4: “Os homens, em vão, procuram derrubar outro homem com suas palavras falsas;“pois não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido”( Mat 10:26). Com os policiais e o traidor não foi diferente. Esses preceitos bíblicos foram fidedignamente aplicados aos odientos sujeitos, que de uma forma ou de outra, tiveram um fim condizente com a maldade que perpetraram. O fim existencial destes foi um manifesto sinal da vingança divina, concretizada em castigos exemplares. Nada fica impune neste mundo, a despeito da justiça humana falhar fragorosamente muitas vezes. A máquina divina age silenciosamente, punindo com maestria aqueles que derramam o sangue de inocentes. Desde Caim que funciona assim, não tendo sossego os traidores e homicidas em face de suas iniqüidades, conforme podemos observar em Gênesis 4, 10 a 12: “- O Senhor disse-lhe: “Que fizeste! Eis que a voz do sangue do teu irmão clama por mim desde a terra. De ora em diante, serás maldito e expulso da terra, que abriu sua boca para beber de tua mão o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, ela te negará os seus frutos. E tu serás peregrino e errante sobre a terra.” Tudo isso ocorreu sem a concorrência dos descendentes de Netale, que não usaram em nenhum momento do revide, arma tão próxima das pessoas baixas de espírito. As mãos limpas refletem uma mente sã, desprovida de sentimentos primitivos e bárbaros. Isso tudo esteve e estar indubitavelmente atrelado àquela família que sofreu com a morte prematura de um ente querido, amargando restrições econômicas e sociais, mas nunca se nivelando ao patamar da gente miúda que assassinou ou colaborou para a impunidade desses infratores. No dia 7 de setembro quando a banda Nefhtale Freire de Araújo tocar os primeiros sons do dia da Independência, fiquem cientes que ela fará em memorial a um justo que teve sua vida abreviada pela brutalidade e insídia de um punhado de bandidos. Fiquem cônscios que o toque dela é uma prova inequívoca da força do Direito Divino, manifestação de uma energia que perscruta nossos corações, conforme se observa no Salmo 64, 9, 10: “Todos os homens verão a justiça de Deus, e os justos se gloriarão nele”.

sábado, 5 de dezembro de 2009

O contrabandista









Volta e meia, Nasrudin atravessava a fronteira entre a Pérsia e a Grécia montado no lombo de um burro. Toda vez passava com dois cestos cheios de palha e voltava sem eles, arrastando-se a pé. Toda vez o guarda procurava por contrabando. Nunca o encontrou.


- O que é que você transporta, Nasrudin?


- Sou contrabandista."


Anos mais tarde, com uma aparência cada vez mais próspera, Nasrudin mudou-se para o Egito. Lá encontrou um daqueles guardas de fronteira.


- Diga-me, Mullá, agora que você está fora da jurisdição grega e persa, instalado por aqui nesta vida boa - o que é que você contrabandeava, que nunca conseguimos pegar?


- Burros.


*Mulla Nasrudin (Khawajah Nasr Al-Din) viveu no século XIV. Contou e escreveu histórias onde ele próprio era personagem. São histórias que atravessaram fronteiras desde sua época, enraizando-se em várias culturas. Elas compõem um imenso conjunto que integra a chamada Tradiçã Sufi, ou o Sufismo, seita religiosa de antiga tradição persa e que se espalha pelo mundo até hoje.

O Tolo que era Sábio

O Tolo que era Sábio







Todos os dias o Mullah Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor. A história correu pelo condado. Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor. Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse:

- Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será considerado idiota pelos outros.

- O senhor parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque. Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente. Às vezes, é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito melhor passar por tolo e ser inteligente do que ter inteligência e usar fazendo tolices.





"Os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem!"


*Mulla Nasrudin (Khawajah Nasr Al-Din) viveu no século XIV. Contou e escreveu histórias onde ele próprio era personagem. São histórias que atravessaram fronteiras desde sua época, enraizando-se em várias culturas. Elas compõem um imenso conjunto que integra a chamada Tradiçã Sufi, ou o Sufismo, seita religiosa de antiga tradição persa e que se espalha pelo mundo até hoje.